caco modula
Um cara com o saco roxo. Sim, no modo de dizer, que fique claro. Este é José Saramago. Primeiro veio com o livro “O evangelho segundo Jesus Cristo”, depois, “Caim”, que conta a história do filho de Adão e Eva, que mata o próprio irmão por ciúme. Pelo menos é assim que aprendemos até pouco tempo. Vem esse tal de Saramago, Nobel de Literatura, e muda tudo.
OK. Ele não muda tudo, mas muita coisa. Vamos lá. Caim sentiu ciúme, mas a culpa foi mesmo de Deus. Se tivesse Ele aceitado suas oferendas, Caim não teria matado o irmão. E ainda que o ciúme o tivesse motivado a cometer o assassinato, o Senhor poderia tê-lo impedido. E não o fez para testar o caráter do irmão invejoso.
Uma sacanagem, na opinião de Caim. Sacanagem tão grande quanto às que o Senhor comete por toda a narrativa bíblica adaptada na obra do escritor português. Vinganças, extermínios, punição a inocentes. E não existe explicação lógica para isso, apenas a resposta de que os desejos dos deuses são imperscrutáveis.
Caim passeia por muitos episódios do antigo testamento. A história vai desde a criação de Adão e Eva até o final da viagem da Arca de Noé. Passa por Sodoma e Gomorra, pela Torre de Babel, pelo Cerco de Jericó. E do começo ao fim Caim trava muitas discussões com Deus e põe em xeque até mesmo as convicções dos anjos.
Se antes Saramago apresentara um Jesus tão humano quanto você e eu, apesar de toda a sua divindade, agora ele mostra um Caim capaz de argumentar diretamente com Deus sobre as barbáries cometidas contra os pecadores. Chega a comparar o Senhor com um filho da puta. Pode? Saramago achou que podia e o fez. E fez muito mais: falou sobre traições, incestos e mentiras, apresentando um antigo testamento tão perturbado quanto sua própria mente é capaz de criar.
O final não chega a ser triunfante, mas “Caim” é a prova de que Saramago sabe como criar polêmicas e abalar (ou pelo menos dar umas cutucadinhas) nas convicções cristãs.
"Então, comeu kibe cru e sentiu a vida nascer. Desse dia em diante tomou gosto pela vida e só passou a comer..." (Trio Mocotó)
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quinta-feira, 10 de junho de 2010
Saramago se encontra com Deus. Ou não
caco modula
Coisas de estagiário: um jovem mancebo com quem trabalho sugeriu o nome de um novo livro, “Ensaio sobre a gagueira”, para homenagear alguém do nosso convívio diário. A brincadeira surgiu depois de comentarmos algo a respeito do “Ensaio sobre a cegueira”, um livro que virou filme e teve grande repercussão.
“Ensaio sobre a cegueira” foi um dos muitos livros escritos por José Saramago, de quem já falei algumas vezes por aqui. Polêmico, pessimista de primeira, com um sarcasmo de alto nível, o escritor português causou grandes discussões com muitas de suas obras. Sou fã.
Mas como acontece a todos os meros mortais, hoje foi a vez dele, Saramago. Morreu aos 87 anos, na Espanha, onde morava, e deixou o mundo mais burro, mais sem graça, menos polêmico.
Depois de escrever sobre as brigas entre Deus e Caim, Deus e o Diabo, Deus e todo mundo, chegou a vez dele de brigar com o Senhor. Talvez diga que nunca imaginou que fosse tão simples, ou tão pomposo. Pode ser que questione os tantos anjos bajulando o Senhor, ou fique admirado por não haver luxo algum. Ou talvez simplesmente estale os dedos e diga: eu sabia, deus não existe.
De qualquer forma, ele deixou por aqui universos literários sólidos, um estilo extremamente peculiar, com parágrafos longos, pontuação própria e narrativas densas. Mesmo assim, foi lido por milhares, milhões, sua obra ultrapassou os limites das páginas e foi para o cinema. E ele ganhou o mundo. Ou foi o mundo que ganhou?
Agora, vencido, Saramago não vai causar novas polêmicas, não vai fazer novas críticas à Igreja ou a Deus. Infelizmente.
Coisas de estagiário: um jovem mancebo com quem trabalho sugeriu o nome de um novo livro, “Ensaio sobre a gagueira”, para homenagear alguém do nosso convívio diário. A brincadeira surgiu depois de comentarmos algo a respeito do “Ensaio sobre a cegueira”, um livro que virou filme e teve grande repercussão.
“Ensaio sobre a cegueira” foi um dos muitos livros escritos por José Saramago, de quem já falei algumas vezes por aqui. Polêmico, pessimista de primeira, com um sarcasmo de alto nível, o escritor português causou grandes discussões com muitas de suas obras. Sou fã.
Mas como acontece a todos os meros mortais, hoje foi a vez dele, Saramago. Morreu aos 87 anos, na Espanha, onde morava, e deixou o mundo mais burro, mais sem graça, menos polêmico.
Depois de escrever sobre as brigas entre Deus e Caim, Deus e o Diabo, Deus e todo mundo, chegou a vez dele de brigar com o Senhor. Talvez diga que nunca imaginou que fosse tão simples, ou tão pomposo. Pode ser que questione os tantos anjos bajulando o Senhor, ou fique admirado por não haver luxo algum. Ou talvez simplesmente estale os dedos e diga: eu sabia, deus não existe.
De qualquer forma, ele deixou por aqui universos literários sólidos, um estilo extremamente peculiar, com parágrafos longos, pontuação própria e narrativas densas. Mesmo assim, foi lido por milhares, milhões, sua obra ultrapassou os limites das páginas e foi para o cinema. E ele ganhou o mundo. Ou foi o mundo que ganhou?
Agora, vencido, Saramago não vai causar novas polêmicas, não vai fazer novas críticas à Igreja ou a Deus. Infelizmente.
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